+BIO #9 – Bioengenharia é “bué da cenas” (I)

 

O Mestrado Integrado em Bioengenharia (MIB) lançado no ano letivo 2006/2007 comemorou este ano os seus 10 anos. Sendo um curso lecionado em duas instituições da Universidade do Porto – a Faculdade de Engenharia (FEUP) e o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) – oferece especializações em três ramos: Engenharia Biomédica, Engenharia Biológica e Biotecnologia Molecular. Os estudantes do MIB escolhem o seu ramo no final do segundo ano do curso, conforme as suas preferências e projetos futuros. Ai passam a ter aulas apenas na FEUP ou no ICBAS conforme o ramo que escolhem: Engenharia Biomédica e Engenharia Biológica são lecionadas apenas na FEUP, enquanto Biotecnologia Molecular é lecionada unicamente no ICBAS.

Neste artigo, pretende-se elucidar os mais novos na escolha do seu ramo bem como dar a conhecer aos curiosos o que é bioengenharia. Para tal, fomos entrevistar os representantes finalistas de cada ramo e descobrir as suas opiniões.

O Carlos Ferreira, a Mariana Canoso e a Sara Miranda responderam assim às nossas perguntas sobre os respetivos ramos: Engenharia Biomédica, Engenharia Biológica e Biotecnologia molecular.

Esta é a primeira parte do artigo sendo que podes encontrar o restante no jornal Corino!


NEB – Em primeiro lugar, o que te levou a decidir o teu ramo?

Carlos – A escolha do ramo torna-se mais fácil se olharmos para as unidades curriculares que cada um oferece. Decidi escolher biomédica uma vez que tinha uma maior quantidade de unidades curriculares que potencialmente iria gostar. Além do mais, era um ramo que continha pouca Biologia – uma das áreas que menos gostei no curso.

Mariana – Eu escolhi o ramo de Engenharia Biológica um pouco por exclusão de partes. A minha tendência para programação, eletrónica e coisas que tais é muito vestigial, por isso, Engenharia Biomédica não era um percurso a seguir; quanto a Biotecnologia Molecular, disciplinas mais teóricas e focadas na área da Biologia/Medicina/… não me atraía igualmente. Engenharia Biológica está mais relacionada com a indústria, tem a biologia e a química aliadas (com o cálculo por trás), e isso desde cedo foi o que mais me despertou interesse.

Sara – A escolha do ramo torna-se mais óbvia quando, terminados dois anos e depois de vinte cadeiras feitas, olhas para trás e vês quais aquelas que mais gostaste e quais aquelas sobre as quais nunca mais queres ouvir falar. Embora tenha gostado de programação, o mesmo não aconteceu com outras cadeiras mais ligadas à eletrónica, o que me fez pôr de parte engenharia biomédica. Por outro lado, gostei bastante das cadeiras de Biologia e das que falavam de biomateriais. Como a área da saúde sempre foi das que me despertou maior interesse, o ramo de Biotecnologia Molecular pareceu-me a opção mais adequada para mim. Olhando para trás, acho que fiz a escolha certa.


NEB – Podes explicar em que consiste o teu ramo?

Carlos – Atualmente o ramo de Engenharia Biomédica é muito bom para quem quer trabalhar em instrumentação, programação (tanto no desenvolvimento de aplicações como em análise de sinal ou imagem) e também em biomecânica. Apesar de ter uma pequena componente ligada aos biomateriais, o ramo de Biotecnologia Molecular oferece melhores valências para quem se quiser especializar nesta área.

Mariana – Na minha opinião, um Engenheiro Biológico é a versão “bio” de um Engenheiro Químico. Em Engenharia Química eles focam-se muito em moléculas, reações químicas e coisas que tais. Em Engenharia Biológica, preocupamo-nos com a “bicharada” que nos permite ter muitos dos alimentos e medicamentos que existem hoje no mercado. Atualmente já existe o ramo de Biotecnologia em Engenharia Química, mas são poucas as pessoas que optam por essa via e, infelizmente, a formação durante a licenciatura que têm em áreas mais “bio” é menor, daí achar que faz todo o sentido existir Engenharia Biológica.

Sara – Ao longo dos 3 anos de especialização em Biotecnologia Molecular vamos aprendendo a compreender a dinâmica do organismo humano e quais as principais necessidades deste que podem ser colmatadas com novos sistemas de diagnóstico, produtos e tratamentos. Desde compreender como está preparado o nosso organismo para lidar com invasores e corpos estranhos até perceber como se pode desenvolver uma nanopartícula polimérica para transporte de fármacos, funcionalizada de modo a ser biocompatível e biodegradável, várias são as perspetivas e temas abordados neste ramo e que são úteis para o desenvolvimento de tratamentos, terapias e produtos fundamentais para a saúde humana.


NEB – Qual o projeto/trabalho que te entusiasmou/desafiou mais?

Carlos – O ramo de Engenharia Biomédica tem muitos projetos e/ou trabalhos. Penso que o projeto que mais me entusiasmou, por incrível que pareça, foi logo um dos primeiros que realizei – tinha de fazer um programa para determinar o estado de fitness de uma pessoa através de um exercício de step, recolhendo dados de ECG com o VitalJacket. Aquele que mais me desafiou foi desenvolver uma aplicação em Android para determinar o estado de stress de uma pessoa com dados de EDA através do Bitalino. Tive de aprender muito sobre Android em muito pouco tempo. Fiquei feliz por conseguir acabar com sucesso este trabalho.

Mariana – Apesar de a área energética não ser uma das minhas favoritas, o trabalho que mais me entusiasmou foi sobre a produção de energia com recurso a Microbial Fuel Cells (MFCs), usando urina como matéria-prima. Este projeto é desenvolvido na University of West of England (Bristol) e é extremamente bem patrocinado devido ao seu carácter tão inovador. De uma forma muito simples, as MFCs são “caixinhas” com microorganimos lá dentro que, ao oxidar a matéria orgânica da urina, já conseguiram produzir energia suficiente para carregar um telemóvel.

Sara – Sendo dos três ramos o mais teórico, tenho de ser sincera: o projeto que mais me deu gosto fazer foi o que fiz no semestre de ERASMUS. Foi um projeto longo, coeso e desafiante, muito diferente das aulas práticas que, apesar de interessantes no geral, não permitem desenvolver um trabalho contínuo, devido à frequência das aulas.