BioNOW! #52 – Parkinson & Olfato: um (a)caso feliz?

Por Maria João Cabaço em

BioNOW! #52 - Parkinson & Olfato: um (a)caso feliz?

Durante grande parte da História, o principal propulsor da Medicina foi o almejar uma esperança média de vida cada vez maior. No entanto, existe sempre o reverso da moeda e, com vidas mais longas, surgiram novos desafios. O desenvolvimento dos últimos anos permite-nos agora “ver mais longe, por estarmos sobre ombros de gigantes” e leva-nos ao luxo de colocar em causa, não a longevidade em si, mas sim a qualidade da mesma. 

A Doença de Parkinson representa um dos vários riscos que a promessa de uma vida mais longa acarreta. Não tem nenhuma causa conhecida e apenas se sabe que tem influência genética e ambiental. Por não haver cura, a estratégia passa por conseguir detetar a doença no estado mais inicial possível, o que, por vezes, não é concretizável. Haverá forma de contornar a questão e fazer o que ainda não foi feito?

A ciência está repleta de descobertas que foram potenciadas inteiramente pelo acaso. O que seria de nós sem o momento “Eureka” de Arquimedes? Ou sem a descoberta revolucionária de Sir Alexander Fleming, que nos levou à Penicilina? Agora, acredita-se que o diagnóstico da Doença de Parkinson foi posto em causa também por um simples acaso, relacionado com o mais subestimado dos nossos 5 sentidos: o olfato. 

A relação entre os dois não é óbvia para o comum mortal, mas não é nada que uma mulher escocesa com um “superpoder” não conseguisse descodificar. Trata-se de Joy Milne, uma mulher com uma condição rara, que lhe confere um olfato extremamente apurado. Ela foi capaz de detetar um cheiro peculiar no marido, que apenas 12 anos mais tarde conseguiu associar à Doença de Parkinson, que lhe viria a ser diagnosticada. 

Investigadores foram até ao cerne da questão e descobriram que Milne é capaz de detetar o odor característico do Parkinson presente no sebo da pele, especificamente nas zonas da testa e da zona superior das costas. Foi realizado um estudo com 43 pacientes de Parkinson e identificaram-se cerca de 17 compostos orgânicos voláteis relacionados com a doença. Milne referiu ainda que bastava uma combinação de alguns desses compostos para recriar o odor próprio do Parkinson.

Esta descoberta poderá revolucionar o diagnóstico da doença, permitindo que os pacientes possam ser examinados de uma forma não invasiva. Está a avaliar-se a possibilidade de se utilizar um aparelho que recrie as funções de um nariz e que consiga identificar os biomarcadores do odor da Doença de Parkinson. 

Uma deteção precoce levaria a que, por um lado, os pacientes pudessem ser tratados muito antes do surgimento dos primeiros sintomas e, por outro, prevenir-se-ia o avanço da doença para estados mais severos, quando a degeneração do sistema nervoso central é já considerável e incapacitante. O próximo passo envolve o estudo de um maior número de amostras, de modo a construir um leque dos biomarcadores específicos.

Cheira a um novo avanço no caminho certo para alcançar o impensável? Apenas o tempo o dirá!

Categorias: BioNOW!