+BIO #3 – Entrevista ao Prof. Alexandre Quintanilha

Fundindo os números com a biologia o Professor Alexandre Quintanilha é uma referência para os alunos de diversos cursos da Universidade do Porto. O professor apresenta um percurso académico surpreendente (como poderão ler a baixo) sendo neste momento deputado na Assembleia da República.
Esta edição será publicada em duas partes, a primeira aqui na página do NEB e a segunda na revista online Corino coordenada pela AEICBAS. Nesta poderão também encontrar artigos das áreas de Ciências Biomédicas, bem como de cariz lúdico, tais como locais de interesse no Porto e discussão de problemas atuais como experimentação animal e sexologia. Dá uma vista de olhos! –http://corino.aeicbasup.pt.
NEB – Mais de 15 anos após o Processo de Bolonha encontramo-nos em posição de avaliar os seus efeitos. Pensa que trouxe benefícios significativos para os estudantes portugueses? Se sim, quais?
Prof. Alexandre Quintanilha – Eu não acompanhei o processo de Bolonha mas falou-se muito na altura e houve muita gente que deu bastante do seu tempo e energia para desenvolver este processo. Eu acho que uma das vantagens do mesmo é criar na Europa um sistema de ensino que facilita a movimentação de alunos no sistema Europeu, o que eu acho que só por si, se foi conseguido, valeu a pena. Os programas Erasmus são importantíssimos, há quem diga que vão para lá passar férias e não fazer nada… Bem, ainda bem que não façam nada [risos], o ir para outro país e conviver com outras pessoas é fundamental. N11ós temos muitas ideias feitas, nascemos, vivemos numa comunidade e achamos que as coisas são sempre assim, no entanto quando se vai para outro sitio percebe-se que estamos enganados… São diferenças dramáticas, não é só na alimentação ou no modo de vestir, é a forma de olhar para o mundo, por exemplo estando na Holanda os holandeses são todos diferentes uns dos outros, no entanto há uma forma de estar muito diferente da nossa. Ainda assim, tentar formatizar demasiado o sistema de ensino europeu não foi benéfico… Tenho muita pena que agora os cursos de Medicina sejam cada vez mais parecidos uns com os outros porque há demasiadas regras a cumprir a nível Europeu. Penso que seria interessante haver diversidade na forma de ensinar Engenharia, Medicina, Arquitetura… Neste aspeto o processo pagou um preço que eu considero elevado.
NEB – O Professor, em conjunto com o Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) está a participar no projeto NERRI, que visa o estudo da neurotecnologia (drogas psicotrópicas ou dispositivos de estimulação cerebral). Em primeiro lugar, o que gostaria de ver feito nesta área?
AQ – O projeto NERRI tem como objetivo perceber como é que nos vários países da Europa as pessoas olham para o neuro enhancement, isto é, a potenciação cognitiva. Curiosamente o que se está a perceber é que estas sabem muito pouco sobre o assunto, e, como em tudo sobre o que se sabe pouco, à quem fique fascinado com a ideia, “Será que é possível potenciar mais o nosso cérebro?”, e há outros que ficam cheios de medo, “O que é que agora vão fazer?”, “Será isto uma forma de controlo da mente?”. Por exemplo, já foi feita uma demonstração em que uma tetraplégica com um chip no cérebro dava uma ordem, através do pensamento, a um computador ligado a um robô que fazia o que ela queria… Agora imaginem que da mesma forma que ela dá uma ordem ao computador o computador dá-lhe uma ordem e consegue controlar o seu cérebro… Será que um dia isto pode ser usado para influenciar o que as pessoas pensam? Isso levanta medos… Portanto, o objetivo principal do projeto é perceber como os europeus pensam sobre esta questão e depois sugerir a introdução de legislação ou de formas de olhar para esta grande área que permitam alguma gestão de uma forma aceitável para a nossa sociedade, inclusive, dando sugestões à Comissão Europeia sobre quais as áreas que merecem mais financiamento nestes domínios e os princípios éticos e jurídicos que devem governar a investigação que será feita no futuro. No fundo é a velha questão: o conhecimento em si próprio nunca é mau ou bom, o que se faz com o conhecimento é que pode ser mau ou bom. Por exemplo, a energia nuclear é limpa no sentido em que não produz dióxido de carbono e portanto não dá origem a alterações climáticas mas por outro lado serve para produzir bombas atómicas que não são propriamente simpáticas. A neuropotenciação é a mesma coisa. Porque é que os vocês acham, bem como os vossos pais, que vale a pena passar anos a estudar? Vocês julgam que passado algum tempo têm um cérebro que funciona melhor, que vai servir para muita coisa… Portanto a neuropotenciação tem 10 mil anos de existência, chama-se educação. Isto é uma coisa muito antiga mas agora há formas novas de o fazer: através de fármacos, ligações com computadores etc… Imagine que um dia passa a ser possível substituir as células do cérebro responsáveis pela doença de Parkinson por células estaminais nossas e viáveis? Seria fabuloso, era uma forma de retardar o Parkinson… Agora imagine que alguém descobria que era possível desenvolver células ainda mais interessantes que postas naquele sitio vos davam capacidades novas de sonhar e imaginar… Ou então pensem no caso da retina dos nossos olhos, nesta temos uma molécula que se chama rodopsina, que ao receber luz tem uma alteração conformacional, abre uns canais que deixam passar protões e cálcio e vai uma imagem para o cérebro… Agora imaginem que desenham uma rodopsina que não só sofre alteração conformacional com a luz visível mas também com o infravermelho e que começa a ser possível ver na gama infravermelho… Não é absurdo… Será que um dia vamos ter retinas com uma parte sensível à luz visível, uma parte sensível ao ultravioleta e uma parte sensível ao infravermelho? Quer dizer isto é tudo fantasia para já mas não é inimaginável… Deve isso ser permitido? Será que devemos ser muito permissivos ou restritivos? Quer dizer, quando a legislação é muito repressiva em geral não funciona muito bem, olhemos para o caso dos Estados Unidos, com a Lei Seca o álcool passou para o mundo criminal, isto é, a repressão em geral faz com que as coisas desapareçam do controlo colocando-se a questão: será que é melhor ser menos repressivo de forma a manter mais o controlo ou não?
NEB – Até que ponto é ético o uso de neuro enhancers por parte de indivíduos saudáveis, nomeadamente jovens e crianças? Será que devemos restringir o uso de neurotecnologias ao tratamento de doenças, tais como o Alzheimer?
AQ – Existe um grupo muito forte constituído por transumanistas, que acha que o ser humano está a meio da sua evolução, quer dizer, o ser humano tem umas centenas de milhares de anos de existência e se calhar vai evoluir, não se sabe é para onde… Estas pessoas pensam que nós devemos acelerar esse processo e que esta coisa de ficar à espera que a Natureza é perfeita e decidirá “o rumo” da espécie, já é passado e que podemos interferir com o processo de evolução. E assim voltamos à mesma história: há muito pouca gente que tem duvidas sobre a neuropotenciação como terapia, isto é, quando se trata de recuperar capacidades que se perdeu. Por outro lado, ter capacidades adicionais àquelas consideradas a média normal das pessoas é onde se encontra a duvida, onde é que é aceitável parar? Estas novas técnicas de neuropotenciação provavelmente vão dar para fazer as duas coisas e eu acho que se tem de analisar caso a caso… Pegando no exemplo atrás referido: já começaram a colocar chips sensíveis à luz na retina e que voltar a dar a visão a pessoas que perderam a visão, quem é que seria contra isso? Agora imaginemos que esse chip permitia não só ver luz visível mas também infravermelho, acha isso correto ou incorreto? Garanto-lhe que em 10 pessoas terá umas 2 ou 3 que acham correto, umas 2 ou 3 que acham incorreto e as restantes que não tem opinião, e portanto nós temos de viver numa sociedade em que todas as novas tecnologias que estão a ser desenvolvidas levantam muitas questões éticas. A procriação medicamente assistida, ainda hoje levanta problemas… Isso levanta um monte de discussões éticas como vocês sabem e é uma técnica que já existe, há milhões de crianças que já nasceram através da procriação medicamente assistida e há milhões de casais para quem isso foi o que mais queriam na vida, reviram-se nisso, no entanto ainda há quem ache que este processo não devia ser acessível muito menos para mulheres solteiras porque por exemplo, não vão ter um pai… O caso da neuropotenciação não é diferente.