BioNOW! #17 – Renascimento psicadélico: o estudo de substâncias psicoativas

Por Eduardo Carvalho em

BioNOW! #17 - Renascimento psicadélico: o estudo de substâncias psicoativas

Já faz quase 70 anos que Aldous Huxley trouxe ao mundo o relato da sua fascinante experiência psicadélica, possivelmente a mais emblemática da literatura, em The Doors of Perception. Numa manhã primaveril de 1953, após ingerir quatro décimos de uma grama de mescalina – um alucinogénio natural presente no cacto peiote – o autor de Brave New World, sob a supervisão da mulher e de um amigo investigador, deambulou pelas ruas de Los Angeles, tomando partido da percepção alterada e da variedade quase-caótica de estímulos da cidade.

“The really important facts were that spatial relationships had ceased to matter very much and that my mind was perceiving the world in terms of other than spatial categories. At ordinary times, the eye concerns itself with such problems as where?how far?how situated in relation to what? In the mescaline experience the implied questions to which the eye responds are of another order. Place and distance cease to be of much interest. The mind does its perceiving in terms of intensity of existence, profundity of significance, relationships within a pattern.” – The Doors of Perception.

O estado psicadélico induzido pela mescalina tem efeitos comparáveis com os induzidos por LSD (sigla em inglês da dietilamina do ácido lisérgico) ou por psilocibina, todas elas substâncias pertencentes aos alucinogénios clássicos. Curiosamente, apesar de existirem inúmeras evidências de que o consumo de alucinogénios seja tão velho quanto a nossa espécie, o comportamento permanece um tabu para muitas sociedades modernas. Esta aversão, infundada e recente na história da humanidade, ao consumo de psicadélicos resultou numa autoinfligida deficiência no que toca ao seu estudo e, por conseguinte, das suas potencialidades terapêuticas.

Ora, os últimos trinta anos têm sido caracterizados pelo ressurgimento do interesse clínico nestas substâncias, uma espécie de Renascimento Psicadélico, o qual tem beneficiado com avanços em campos como a neurobiologia funcional e a imagiologia. Um estudo, recentemente publicado na NeuroImage, sugere que o estado psicadélico induzido por LSD enfraquece a associação entre a estrutura anatómica cerebral e a conectividade funcional. Por outras palavras, reduz as restrições impostas por ligações anatómicas já existentes, permitindo a exploração de novos padrões conectivos (sinapses).

Através de imagiologia por ressonância magnética funcional (fMRI) e focando-se nas propriedades de integração (capacidade de integrar informação de diversos circuitos) e segregação (capacidade de atribuir informação a circuitos locais especializados num certo tipo de processamento), os investigadores mediram ao longo do tempo os efeitos da substância, contrastada com um placebo, enquanto recolhiam relatos subjetivos dos participantes.

Figura 1 – Representação da conectividade funcional dinâmica em subestados predominantemente integrados e segregados, após a ingestão de LSD e de um placebo. Depois de obter sinais a partir de uma janela deslizante, um histograma do coeficiente de participação conjunta dos nodos e o Z-score de cada módulo, é aplicado um algoritmo k-means para efeitos de classificação. Classes com coeficientes de participação médios elevados são identificados como estados predominantemente integrados, e vice-versa.

Os resultados obtidos mostraram que a atuação de LSD se manifesta de forma não-uniforme no tempo, quer em termos funcionais quer no que toca à experiência subjetiva. Por um lado, tornou mais complexos estados em que predomina a segregação, reduzindo as restrições estruturais e afetando a conectividade funcional ao córtex pré-frontal anteromedial – região que se pensa ser responsável pela monitorização da realidade. Por outro lado, correlacionou a experiência subjetiva de “dissolução do ego” – estado caracterizado pela sensação de renúncia da identidade – com períodos em que predomina a integração.

O estudo de substâncias psicoativas é uma oportunidade única para as neurociências, não só pelas inúmeras lacunas herdadas da negligência política e do financiamento insuficiente, mas também pelo potencial que têm vindo a revelar no tratamento de condições psiquiátricas. Em última instância, é sempre mais uma ferramenta no arsenal da busca da nebulosa origem da consciência.

Sabe mais em:
https://doi.org/10.1016/j.neuroimage.2020.117653

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