BioNOW! #24 – Apresentação de antigénios bacterianos por células tumorais

Por Nuno Oliveira em

BioNOW! #24 - Apresentação de antigénios bacterianos por células tumorais

A chave para o controlo da resposta do sistema imune ao cancro pode ir para lá das nossas células – estudos recentes demonstram a importância da presença de bactérias nos tumores humanos.

Apesar de serem uma das principais causas de morte no mundo, a taxa de letalidade das doenças oncológicas tem vindo a diminuir nas últimas décadas, graças a grandes avanços no seu tratamento. Muitas das novas abordagens terapêuticas são formas de imunoterapia, que procura assegurar a destruição das células tumorais pelo próprio sistema imune do doente.

Para que um tumor se estabeleça e prolifere, é necessário que consiga escapar à vigilância do sistema imunitário do doente. Essa vigilância é feita, entre outros mecanismos, por células capazes de reconhecer moléculas expostas pelas outras células na sua superfície (antigénios). As estratégias de imunoterapia podem passar, por exemplo, por “alertar” o sistema imune de certos antigénios tumorais, para que este passe a reconhecer corretamente as células cancerígenas.

Nas últimas décadas, a investigação nessa área tem procurado encontrar antigénios tumorais específicos, que possam ser usados como alvo para este tipo de abordagens. No entanto, só recentemente se começou a prestar atenção às populações bacterianas que habitam os tumores. No ano passado, um artigo publicado na Science demonstrou que estas populações são específicas para o tipo de tumor em que se encontram, tendo semelhanças entre diferentes doentes, e habitando principalmente dentro das próprias células tumorais. Agora, um novo estudo demonstrou que certas moléculas secretadas pelas bactérias podem ser expostas pelas células tumorais, alterando o seu reconhecimento pelas células imunes.

Apesar das implicações deste fenómeno ainda não estarem completamente esclarecidas, isto revela uma nova forma através da qual o microbioma afeta o funcionamento do organismo e sugere novos caminhos a explorar para o desenvolvimento de imunoterapias para o cancro. É provável que os antigénios produzidos pelas bactérias possam vir a ser um alvo terapêutico importante, já que são específicos dos tumores e parcialmente comuns a diferentes doentes.

Assim, estas descobertas podem ser a base para novas estratégias que se revelem eficazes a tratar diversos tipos de cancro, de forma mais versátil e com menos efeitos secundários que as terapias atuais.

Sabe mais em:
https://doi.org/10.1126/science.aay9189
https://doi.org/10.1038/s41586-021-03368-8

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