BioNOW! #35 – Música no Cérebro: poderoso instrumento de socialização

Por Eduardo Carvalho em

BioNOW! #35 - Música no Cérebro: poderoso instrumento de socialização

A música começou a acompanhar o Homem na sua jornada evolutiva numa época em que o conceito de “civilização” ainda não existia na psique humana. De facto, evidências arqueológicas sugerem que os nossos antepassados nómadas já se deleitavam com o sopro de flautas feitas com ossos, há cerca de 40 000 anos. Sabe-se ainda que a música teve um papel central nos rituais religiosos e eventos comunitários das várias civilizações que floresceram na Era Agrícola – desde as ocidentais cerimónias maias, passando pelas competições helénicas, até aos cantos orientais dos Vedas – cujo legado carregamos ainda hoje. Em suma, a música tem sido uma força aglutinante e constante, mesmo nos períodos mais tumultuosos da nossa História.

A prova mais evidente da persistência da música em tempos conturbados encontra-se à nossa volta. A vigente pandemia veio abalar as dinâmicas sociais que até há bem pouco tempo operavam nas sociedades. Todavia, não mudou o nosso apego à música, transformando os festivais de verão e as orquestras sinfónicas em espetáculos digitais ou até mesmo em concertos que ressoam de varanda em varanda.

Inspirado por esta dimensão social da música, um grupo de neurocientistas das Universidades de Bar-Ilan e de Chicago publicou um artigo que reúne os últimos avanços em neurociência social, no campo musical e na teoria evolutiva, e expõe os mecanismos cerebrais que contribuem para a conexão social pela via musical.

Figura 1 – Esquemático dos mecanismos enumerados no artigo.

Dentre os vários circuitos envolvidos, os investigadores destacaram os de:

  • Empatia – ajudam-nos a perceber o que os outros estão a pensar ou sentir, e promove a coordenação musical com outras pessoas, quer numa ópera de Wagner quer no simples cantar de um hino.
  • Secreção de oxitocina – a libertação da “hormona do amor”, que ocorre quando cantamos em uníssono, contribui para a sensação de estarmos ligados socialmente.
  • Recompensa e motivação (secreção de dopamina) – este neurotransmissor produz a sensação de prazer e é libertado durante a antecipação musical, o que explica porque certas sequências de acordes nos soam tão familiares, mesmo que as estejamos a ouvir pela primeira vez.
  • Estruturação linguística – são responsáveis pelo diálogo musical que, analogamente à comunicação verbal, engloba pares de frases distintas, em que a segunda (resposta) parece responder ou tecer um comentário à primeira (chamada).
  • Secreção de cortisol – a libertação desta hormona, que está diretamente relacionada com o aumento do stress, é suprimida no cérebro quando cantamos ou ouvimos música em grupo.

Com este tipo de investigação, os investigadores pretendem abrir portas a um novo campo científico – o da neurociência social da música. As demais evidências reunidas mostram que a música não é, nem nunca foi, uma misteriosa faculdade de segundo plano da existência humana, mas antes uma ferramenta central, capaz de congregar indivíduos, moldar identidades e sarar divisões.

Sabe mais em:
https://doi.apa.org/fulltext/2021-55326-001.html

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