BioNOW! #42 – Uma descoberta mal perfumada: Os efeitos involuntários do olfato

Por Eduardo Carvalho em

BioNOW! #42 - Uma descoberta mal perfumada: Os efeitos involuntários do olfato

Concedamos aos zelosos behavioristas que cada organismo é um autómato cuja sobrevivência depende da sua capacidade de evitar o castigo e perseguir a recompensa. Não fosse esta ousada concessão suficiente, aceitemos ainda que aquilo a que comumente chamamos de sentidos ou perceções não passa de uma caixa de elaboradas ferramentas evolutivas, cujos intricados desenhos são experimentados por esta máxima. Será esta uma visão adequada da realidade? Afinal de contas, evitamos o que cheira a esturro, porque nem tudo cheira a Lisboa.

Expressões idiomáticas à parte, o olfato desempenha, nos humanos, um dos papéis mais importantes na deteção e reação a estímulos potencialmente nocivos. O sistema olfativo perfaz cerca de 5% do cérebro humano e permite-nos diferenciar milhões de cheiros distintos. Destes, uma larga fatia está associada a perigos à nossa saúde e sobrevivência, como é o caso de alguns químicos tóxicos ou de comida podre. Dada a tendência humana para sobrestimar o alcance daquilo a que chama consciência, durante muito tempo pensou-se que a resposta aos estímulos olfativos pertencia à sua alçada. Não obstante a precipitação – intolerável numa era de cientismos – esta intuição não é irrazoável: olhe-se para os séculos em que as pessoas coabitavam de livre-vontade em cidades nauseabundas e pestilentas, como a Londres do século XVII ou a Paris do início da Revolução Industrial, rodeadas por uma seleção infindável de aromas e odores insuportáveis; por uma mistura de hálitos e vapores fétidos; por ruas que tresandavam a lixo e emanações corporais de toda a espécie. Perdoem-me a discórdia os discípulos de B. F. Skinner, mas só um ser consciente – e, acrescente-se, masoquista – poderia submeter-se a semelhantes condições.

Ora, apesar do homem poder contornar os instintos mais primitivos através da razão, acontece que temos menos controlo sobre as respostas a estímulos olfativos do que pensávamos. Após serem inalados, os sinais olfativos demoram entre 100 e 150 ms a atingir os bulbos olfatórios. Todavia, o que se passa de seguida permaneceu misterioso até recentemente. Num estudo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences, um grupo de investigadores do Karolinska Institutet da Suécia mostra o que acontece quando o cérebro deteta um cheiro potencialmente perigoso. Os investigadores desenvolveram um método que permite pela primeira vez medir os sinais do bulbo olfatório que estão envolvidos no processamento dos odores e na comunicação com outras partes cerebrais, responsáveis pelo movimento controlado e pelo comportamento evasivo.

Nesta experiência, foi pedido a cada indivíduo de um grupo de participantes que avaliasse as experiências resultantes de seis odores diferentes, umas positivas e outras negativas, enquanto sujeito à medição do movimento corporal e da atividade elétrica do bulbo olfatório.

Figura 1 – Os odores desagradáveis provocam uma rápida reação de evasão. (A) Esquema da configuração experimental. Os participantes permanecem sobre uma placa de aplicação de forças com os pés juntos, face a uma parede com uma marcação colocada ao nível do olhar. A respiração é medida com um respirómetro, e o olfatómetro é sincronizado ao ciclo respiratório. (B) Gráfico de barras que mostra a valência média atribuída aos odores agradáveis e desagradáveis, durante a experiência. (C) A modulação do PAM (posterior-anterior movement) em função da amplitude das ondas beta e da valência do odor, 500 ms após a inalação. (D) Gráfico que mostra não existirem diferenças significativas no fluxo respiratório entre as duas valências, que possam explicar os resultados obtidos.

Os resultados sugerem que os cheiros que invocam experiências negativas, como o desconforto ou o mal-estar, são processados mais rapidamente – começando o processo precisamente no bulbo olfatório – e desencadeiam respostas físicas evasivas – mais concretamente o afastamento inconsciente da fonte do cheiro, em menos de 300 ms.

Com isto, talvez a resposta à pergunta “Com qual dos sentidos conseguirias viver sem?” deixe de ser perentória e em desfavor do olfato. Não é que este mereça o estatuto de filho pródigo, mas talvez um pouco mais da atenção que os seus pomposos irmãos captam. Ou, pelo menos, uma breve hesitação…

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