BioNOW! #44 – Otimização de um péptido no combate dos efeitos secundários da Cannabis medicinal

Por Maria João Cabaço em

BioNOW! #44 - Otimização de um péptido no combate dos efeitos secundários da Cannabis medicinal

Os canabinóides têm sido um assunto tabu por se recear, principalmente, os seus efeitos secundários. Por mais que as pessoas fiquem de pé atrás, a verdade é que benefícios em comparação com anti-inflamatórios e opióides, no tratamento de doenças crónicas. Será um simples péptido capaz de fazer a ciência dar um passo em frente e eliminar os efeitos secundários? 

Temos testemunhado uma revolução quanto à aceitação do uso de compostos canabinóides. O seu potencial analgésico é reconhecido no alívio da dor que provém de enxaquecas, artrite reumatóide ou cancro, para nomear apenas alguns exemplos de doenças crónicas, que afetam 10-20 % da população mundial. No entanto, os efeitos secundários consistem em deficiências cognitivas e são capazes de comprometer a integridade da memória, sendo esta a maior limitação dos canabinóides.  

Em alternativa, os opióides são bastante eficazes no alívio de dor, mas criam dependência. Os anti-inflamatórios não esteróides são igualmente utilizados, mas têm pouco êxito no alívio da dor e levam a efeitos secundários graves a nível gastrointestinal e renal. Assim, procurou-se perceber o que leva os canabinóides a afetar as capacidades cognitivas, para melhor se compreender o seu comportamento. 

O principal componente da Cannabis sativa é o canabinóide THC (∆9– tetraidrocanabinol), que entra no organismo por um recetor, cuja ativação leva a analgesia (alívio da dor). No entanto, em simultâneo, ativa-se um segundo recetor, responsável pela memória, aprendizagem e outras funções cognitivas. Um estudo em ratos, que não continham este segundo recetor, revelou que as consequências prejudiciais dos canabinóides advinham de um heterómero (CB1R−5HT2AR) formado a partir da relação entre os dois recetores. A fim de se alterar estruturalmente este heterómero, investigadores utilizaram um péptido que, quando injetado nos cérebros dos ratos, gerou problemas muito menos significativos a nível da memória. 

Este péptido foi otimizado, de forma a ter um tamanho de apenas 16 aminoácidos e uma maior estabilidade e habilidade para atravessar a barreira sangue-cérebro. Após os ensaios, concluiu-se que ratos tratados, tanto com THC, como com administração oral do péptido (17: wliymyayvaGilkrw), beneficiaram do alívio da dor, sem quaisquer efeitos na memória. Ratos tratados unicamente com THC apresentaram danos cognitivos. 

Segundo os investigadores, o estudo tornou o péptido “um candidato a medicamento ideal” na redução de efeitos colaterais a nível cognitivo, no alívio de dor à base de cannabis. Será um simples péptido capaz de trazer esperança a doentes crónicos? De lhes trazer o conforto e a qualidade de vida com que todos sonhamos? 

Categorias: BioNOW!