BioNOW! #48 – O tr(i)unfo dos porcos

Por Eduardo Carvalho em

BioNOW! #48 - O tr(i)unfo dos porcos

Ao contrário de animais como o cão, o cavalo e o dragão (se não excluirmos os seres imaginários dos catálogos da antiguidade e bestiários medievais), o porco é um animal que desperta reações mistas. Segundo a tradição chinesa, é símbolo de riqueza e prosperidade. Já os egípcios consideravam-no um animal impuro, uma vez que se alimentava de dejectos e excrementos – ideia esta que se difundiu pelos Textos Sagrados e que ainda se reflete quer nos hábitos alimentares de judeus e muçulmanos, quer nas demais línguas modernas, onde o termo toma um sentido depreciativo ou até mesmo insultuoso.

Para além de saciar os desejos gastronómicos mais voluptuosos, o porco tem nutrido o panorama cultural e artístico ao longo dos séculos. Homero imortalizou o episódio em que Odisseu descobre que Circe transformou os seus companheiros em porcos; a quase-bicentenária fábula dos Três Porquinhos continua a moldar crianças de todo o globo; e a pena de Orwell consubstanciou os carismáticos pensadores e líderes da Revolução Bolchevique numa autocracia porcina, naquela que será provavelmente a sátira política mais incisiva do século XX. É claro que, em todos estes casos, o porco é trazido à condição de humano e não o contrário – o que, admitamos, é compreensível. Afinal de contas, só os humanos são dotados da capacidade de comunicar as suas vivências. Ou não será este o caso?

As últimas décadas trouxeram para a ribalta a temática do sofrimento animal. Apesar de existir uma saudável relutância em adoptar todas as medidas que o minimizem, o objetivo primário dos seus proponentes já foi atingido: a preocupação com o bem-estar dos animais, tanto de companhia como da pecuária, tem vindo a crescer. Ora, quando existem problemáticas que suscitam preocupação à sociedade, é comum recorrer-se à tecnologia para as mitigar – especialmente quando o empreendimento se afigura lucrativo. Foi precisamente isso que um grupo de investigadores fez ao tentar descodificar a “linguagem” afetiva dos porcos, recorrendo à Inteligência Artificial.

Num artigo publicado na Scientific Reports, os investigadores analisaram a assinatura acústica de mais 7000 grunhidos, provenientes de porcos quer em ambientes rurais quer comerciais. Para isso, usaram algoritmos capazes de distinguir se os porcos estão a experienciar emoções positivas, como o bem-estar ou o entusiasmo, ou emoções negativas, como o medo e o sofrimento. Os diferentes sons são representativos das emoções experienciadas em cenários que vão desde o nascimento, passando por interações sociais e com objetos novos, até à morte do animal.

Figura 1 – Classificação dos sons quanto a: (a) valência e (b) contexto em que surgiram. Baseada nos espectrogramas e obtida por redes neuronais

Os resultados mostram que existe uma prevalência de guinchos estridentes nas emoções negativas, enquanto grunhidos graves e ladridos são comuns ao longo de todo o espectro de cenários. Acresce que a curta duração do grunhido, está geralmente associada à satisfação. De facto, o algoritmo desenvolvido conseguiu classificar corretamente 92% dos sons em emoções positivas ou negativas. Os investigadores tentaram ainda fazer classificações mais detalhadas sobre o tipo de cenário em que ocorreram os grunhidos.

Os investigadores acreditam que o tradutor de porcos pode ser um trunfo para a criação de sistemas de monitorização do bem-estar suíno que permitam um tratamento mais digno, e até economicamente mais vantajoso, no setor pecuário. Acrescentam, ainda, que esperam adicionar mais registos à base de dados, de forma a tornar mais robusta a distinção do repertório de emoções.

Ainda que os animais possam nunca vir a compreender os conceitos complexos e abstractos da experiência humana, não é razão para incorrermos num antropocentrismo desmesurado. Pois, na mesma medida, podemos nunca chegar a entender verdadeiramente todas as facetas das suas misteriosas existências. Ao fim e ao cabo, nunca é demais lembrarmo-nos de que o mal-afamado mandamento “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros” nasce da ilusão e da soberba.

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